TECNOLOGIA E SUSTENTABILIDADE PODEM TRANSFORMAR AGROPECUÁRIA BRASILEIRA
O Brasil é reconhecido como uma grande potência mundial na produção de alimentos. O problema é que isso aconteceu em boa parte com custo muito alto para a natureza com desmatamento e degradação. O mundo está cada vez mais atento às questões ambientais. Não basta produzir muito, é preciso ter responsabilidade ambiental e comprovar boas práticas no campo. O Jornal da Cultura pegou a estrada e achou exemplos que mostram que a tecnologia, a sustentabilidade e a inovação podem transformar a agropecuária brasileira. O Brasil no agro bate recordes puxados por uso de tecnologia no campo e aumento da área de produção. Desde meados dos anos 80, a área destinada à agropecuária no Brasil cresceu cerca de 95 milhões de hectares, ocupando 1/3 do território nacional, segundo o MAP Biomas. A estratégia de expansão foi puxada pela abertura de áreas para pastagem, mas isso nem sempre foi acompanhado de boas práticas. 'Para colocar mais animal do que aquela área suporta, leva ao super pastejo, consumo excessivo de forragem, que vai enfraquecer, fazer com que aquela passagem perca o vigor.' O uso inadequado do solo ao longo dos anos levou a um problema gigante. Mais de metade das áreas de pastagem do Brasil está degradada com baixo potencial de produção. A boa notícia é que esse cenário pode se transformar. Unindo sustentabilidade para o meio ambiente e lucro para o produtor. Nessa fazenda experimental em São Carlos, no interior de São Paulo, pesquisadores da Embrapa desenvolveram sistemas que integram pecuária, lavoura e até floresta para recuperar a capacidade produtiva do solo. A transição não é só visual, muda a estrutura da produção. Técnica é fazer a correção química e biológica do solo e depois usar a agricultura ao lado da criação de gado. Culturas como milho ou soja são plantadas juntas com as forrageiras, como o capim. O solo coberto mantém a nutrição, regula a temperatura e economiza a água. O produtor ainda ganha a opção de ampliar os negócios. 'Uma área que eu tinha só pastagem, eu posso ter um plantio de soja, plantio de milho, que vai me dar outra renda. Até chegar num sistema bem intensivo, bem complexo, com árvores, onde eu vou ter grãos, vou ter animais produzindo carne ou leite e vou até produzir madeira.' Essa é a integração lavoura, pecuária floresta. Aqui o solo foi recuperado. Depois da colheita, a plantação de milho deu lugar ao capim de alta qualidade nutritiva. A sombra da floresta de eucalipto garante conforto às vacas leiteiras. O sistema ainda permite recuperar parte do impacto da produção animal no meio ambiente. 'Esse sistema é um sistema amigável. Por quê? Ao passo que os animais emitem metano, que é um gás de efeito estufa, as árvores sequestram carbono da atmosfera. Então procuramos neutralizar as emissões dos animais com a presença das árvores nesse sistema. A integração vem mostrar que a produção não está desassociada da conservação, da preservação ambiental.' O mercado e os consumidores estão cada vez mais de olho em quem produz. Boas práticas, como rastreabilidade, controle de resíduos, insumos e uso racional da água, por exemplo, são essenciais para quem quer ser competitivo. Mais que um diferencial, sustentabilidade no campo é uma exigência. Porém, recentemente o Congresso Nacional aprovou leis que vão no sentido contrário: flexibilizou o uso de agrotóxicos e desmontou regras de proteção ambiental. Um projeto de lei aprovado na Câmara altera o Código Florestal e deixa desprotegidos biomas importantes, como o Cerrado e a Mata Atlântica. A produção sustentável, aceita pelos organismos internacionais de controle deve atender alguns requisitos. O primeiro é ambiental, que envolve desmatamento zero, agricultura de baixo carbono, práticas que reduzem a emissão de gases e uso racional de recursos. O segundo é sanitário com regras de rastreabilidade e controle defensivos e medicamentos. E o terceiro envolve governança, o cumprimento da legislação que garante certificações internacionais de boas práticas. No passado, a produção de café foi marcada pelo monocultivo predatório. A expansão das lavouras causou alto índice de desmatamento no Cerrado e na Mata Atlântica. As práticas evoluíram e hoje é uma cultura considerada sustentável. Nessa fazenda no Espírito Santo, o que antes era pasto sem vida, hoje abriga uma agrofloresta ou agricultura regenerativa. O método restaura e revitaliza os ecossistemas. Aqui é produzido um café diferente que leva o nome de uma ave, o jacu. É ela quem escolhe naturalmente os melhores frutos. E depois de passarem pelo sistema digestivo do pássaro, os grãos são recolhidos das fezes, higienizados e beneficiados. O resultado é um dos cafés mais raros e valorizados do mundo. 'Eu acho que não há tamanho do produtor que defina essa condição de boas práticas. O que define é conhecimento, é informação, é educação.'