Produtor brasileiro apóia transgênicos, mas com ressalvas

Os agricultores brasileiros acreditam que o cultivo de organismos geneticamente modificados (OGMs) lhes proporciona benefícios, mas admitem que sabem pouco sobre a tecnologia, afirmam que os possíveis riscos desses produtos à saúde humana ainda não são totalmente conhecidos e acreditam que cabe ao consumidor decidir se quer ou não comprar alimentos com tais ingredientes.
É o que mostram os resultados de uma pesquisa realizada pela Indicator GfK com base em 504 entrevistas com produtores de grãos (68% do total), frutas (11%) e outras culturas (21%) do país, espalhados pelas regiões Sul (152 entrevistas), Sudeste (152), Centro-Oeste (104) e Nordeste (96) e divididos pelo tamanho das propriedades: menos de 10 hectares (9%), de 10 a 100 (38%), de 100 a 200 (16), de 200 a 500 (17%), de 500 a 2000 (12%) e mais de 2000 (8%).
O resultado final foi ponderado conforme dados do IBGE, considerando a distribuição de propriedades com maquinário/trator. O estudo consistiu na aplicação de 18 frases, às quais os agricultores puderam dar notas de zero a 10 – onde zero corresponde à total discordância em relação à frase apresentada e 10, à total concordância. Não foi uma pesquisa apenas sobre a soja geneticamente modificada, mas sobre o cultivo de organismos transgênicos em geral.
O expressivo apoio dos produtores brasileiros aos benefícios que os transgênicos pode ser verificado a partir da análise da afirmação “os transgênicos são melhores para o agricultor”, que recebeu, em média, nota 8, puxada pela maior aprovação no Sudeste e no Sul e por parte de produtores com propriedades com menos de 10 hectares.
Também a frase “os transgênicos são um benefício para o país” recebeu nota 7, mas, nesse caso, com pequeno índice de aprovação dos pequenos. Nesses pontos, a pesquisa reflete o discurso das principais lideranças rurais do país, reunidos em associações como Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e Sociedade Rural Brasileira (SRB).
O que as lideranças não comentam, mas foi captado pela pesquisa da Indicator GfK, é que os próprios agricultores, apesar de defenderem o cultivo de OGMs, têm dúvidas sobre sua segurança.
A frase “os possíveis riscos dos transgênicos à saúde não são ainda totalmente conhecidos” recebeu nota média 8, puxada pelo Sudeste e por produtores de praticamente todos os “tamanhos” – exceto aqueles com propriedades com mais de 2000 hectares. E a frase “sei muito pouco sobre transgênicos” recebeu nota média 7, considerada elevada pelos responsáveis pelo trabalho.
“De um modo geral, a pesquisa mostrou que os agricultores sentem falta de maior acesso a informações sobre transgênicos e seus impactos à saúde e ao meio ambiente. Eles têm dúvidas, mas não dizem que nunca vão plantar”, observa Ricardo Augusto Moura e Silva, gerente de atendimento da Indicator GfK.
Carlos Sperotto, presidente da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul), vice-presidente da CNA e um dos maiores defensores dos transgênicos no país, considera normais as dúvidas dos produtores. Informado sobre os resultados das questões levantadas, Sperotto afirmou que entre os gaúchos – que se preparam para plantar uma safra de soja de 90% a 95% transgênica – a aprovação é certamente maior, e que nas regiões nas quais o plantio é incipiente o maior nível de incerteza reflete a falta de contato dos agricultores com a nova tecnologia.
Para ele, também é normal que a frase “eu não compro produtos transgênicos para o consumo da minha família” tenha recebido nota média 5 no trabalho. “Nos EUA, uma pesquisa apontou que 37% das mães optaram por não fornecer alimentos com ingredientes transgênicos. É um percentual elevado, mas significa que 63% delas optaram por fornecer”, comparou.
Já o engenheiro agrônomo Ventura Barbeiro, coordenador da campanha de engenharia genética do Greenpeace, que se opõe aos transgênicos, diz que a pesquisa reforça o que a ONG já havia captado no campo: mesmo quem aprova os transgênicos tem dúvidas. “É por isso que uma pesquisa canadense com agricultores do Québec mostrou que 45,3% deles estão totalmente de acordo com a rotulagem de alimentos com ingredientes transgênicos no varejo, e 32,4% estão parcialmente de acordo”.
Entre outros pontos, o estudo da Indicator GfK também sinaliza temor dos produtores quanto ao escoamento da produção transgênica.

Fonte: Valor Econômico